O Relato da Criação e a Ciência – Compatíveis?



O Relato da Criação e a Ciência – Compatíveis?
em Leitura Bíblica

“… a Bíblia apresenta uma explicação lógica e confiável sobre o início do Universo. Além disso, essa explicação está de acordo com as descobertas científicas.” - Despertai! março de 2014, p. 4.

Você lê a sua Bíblia? Você lê com atenção a sua Bíblia? É possível que seja um leitor regular da Bíblia. Porém quando pergunta se além de regular você lê com atenção o que está escrito, isto lhe soe estranho, pois, muitas pessoas ao redor do mundo já leram suas Bíblias algumas dezenas de vezes em partes ou na sua totalidade e não se aperceberam de certos detalhes que não poderia passar despercebidos nas Escrituras Sagradas.

Neste artigo, “O Relato da Criação e a Ciência, Compatíveis?” da série “Leitura Bíblica” tratará dum modo mais simples quanto for possível sobre alguns detalhes do relato bíblico da criação no livro de Gênesis em que você deve dar atenção. Por quê?

O motivo inclui exatamente o que foi escrito numa revista de cunho bíblico de distribuição mundial: “… a Bíblia apresenta uma explicação lógica e confiável sobre o início do Universo. Além disso, essa explicação está de acordo com as descobertas científicas.” É sem dúvida de grande responsabilidade afirmar algo assim, pois, se isto for verdade, a ciência não nos tem dito algo de extraordinário e, se levarmos em conta que a Bíblia nos dá informações em primeira mão sobre a origem do universo e a formação da Terra, já a pelo menos 3.500 anos, podemos considerar que a ciência pouco avançou neste aspecto.

Por que se deve ter cuidado ao afirmar que o relato bíblico da origem do universo e a da formação da Terra e da vida é compatível com o que a ciência tem descoberto? Quais detalhes você deveria analisar? O que pode haver de errado no relato de Gênesis?


Quando a água foi criada?

A Bíblia inicia o relato da criação deste modo: “No princípio, Deus criou o céu e a terra. A terra era um caos vazio, a escuridão cobria até as profundezas e um vento de Deus se agitava sobre a superfície das águas.” (Gênesis 1:1 e 2 [ * ] ). No relato da criação Deus cria o céu e a terra e nada neles existe ainda. No entanto, algo interessante de ser notado aqui e em qualquer outra parte do relato é que a água já existia e não se menciona que ela foi criada em algum momento.

Talvez você diga: A água não teria sido criado no mesmo momento quando Deus criou o céu e terra? Isto seria uma boa resposta se não fosse por um detalhe: a terra era “um caos vazio”, ou como comumente é dito, era “sem forma e vazia” (Gênesis 1:2, ARCF). Então, se naquela altura a terra era vazia, como havia água? Na verdade, ao ler o relato da criação com cuidado poderá notar que a água não estava contida na Terra, mas, a Terra estava imersa na água, por conseguinte, no relato a água era um fluido preexistente a própria Terra. Você entenderá nos próximos tópicos como isto pode ser possível no relato da criação.


De que é feito o Universo?

A chave para se compreender a informação do que o relato da criação nos transmite sobre o nosso planeta e todo o Universo, além de uma séria análise, é entender os termos usados ali. Por exemplo, você já se deu conta de que significa o termo “firmamento”, também traduzida como “expansão” ou “vastidão”, e como se encaixa no relato da criação? Está é a chave para começar a compreender quão científica é Bíblia e se existe alguma possibilidade e encará-la literalmente.

Observe atentamente: “E Deus disse: Haja um firmamento no meio das águas, a fim de separar águas e águas! E Deus fez um firmamento, que separou as águas que estão acima do firmamento das águas que estão abaixo do firmamento. E assim foi. O firmamento Deus chamou ‘céu’.” (Gênesis 1:6-8) Agora temos um dado que em geral as pessoas não refletem: o firmamento (ou expansão) Deus chamou de céu, isto mesmo, o céu físico de coloração azul que observamos abaixo de nossa atmosfera. Então, podemos concluir positivamente que o firmamento é o céu, e o céu é o firmamento, porque a própria Bíblia nos sinaliza isto.

Com este dado, vamos substituir o termo expansão por céu no mesmo texto: “No princípio, Deus criou o céu e a terra. A terra era um caos vazio, a escuridão cobria até as profundezas e um vento de Deus se agitava sobre a superfície das águas (...) E Deus disse: Haja um [céu] no meio das águas, a fim de separar águas e águas! E Deus fez um [céu], que separou as águas que estão acima do [céu] das águas que estão abaixo do [céu]. E assim foi...” – Gênesis 1:1,2 e 6-8.

Até aqui identificamos: (1) A água era um elemento preexistente na narrativa e presente na extensão de todo o abismo; (2) O firmamento é o céu físico que enxergamos e (3) O céu foi criado para separar as águas de águas, isto é, existe água acima do céu e água retida abaixo do céu. Então, o que toda esta informação significa?

Você, independente de sua formação, saberia responder com certa precisão o que há acima do céu físico que enxergamos? Sim, com juízo responderia que há estrelas e todo o universo, inclusive os outros planetas e o Sol do nosso sistema estelar. No entanto, o texto em termos simples, nos informa que existe água acima do céu, e que o Universo (dentro do que se entendia na época) era feito do fluido aquoso, e em toda a Bíblia existem outras passagens e outras evidências externas que nos indicam isto.

As evidências internas da Bíblia se encontram principalmente no relato do dilúvio. Por exemplo, em Gênesis 7:11 e 12 nos fornece a seguinte informação de como se deu o dilúvio: “No ano seiscentos da vida de Noé, no dia dezessete do segundo mês, as fontes das profundezas se abriram e abriram-se as comportas do céu. A chuva cai sobre a terra durante quarenta dias e quarenta noites.” Que isso significa?

Usando lógica simples, se considerarmos o meio naturalmente conhecido de como se forma a chuva, toda a água que existe na Terra é em quantidade suficiente para evaporar, condensar em nuvens e precipitar de modo a cobrir todo o planeta e atingir sete metros acima do pico do monte mais alto? (Gênesis 7:19, 20) Obviamente, não! Em termos simples, se houvesse água suficiente para tanto, não estaríamos aqui, simplesmente a Terra seria um planeta só de água. O relato sobre o dilúvio não nos informa uma chuva torrencialmente miraculosa, mas, nos informa que “abriram-se as comportas do céu”.
Como você entende o relato da
Criação nos seus 3 primeiros dias
 em Gênesis?

Se você tivesse um reservatório de água e quisesse despejar a água deste reservatório, certamente teria de abrir alguma passagem para a água sair. Do mesmo modo, o relato do dilúvio reforça o que o relato da criação havia dito sobre o que havia acima do céu: água (Gênesis 1:7, 8). Por conseguinte, se o que havia no acima do céu era água, então ambos os relatos nos informa que o universo é feito de água. O mesmo se dá quando o relato do dilúvio diz que “as fontes das profundezas se abriram”, que são as águas abaixo dos limites de águas e águas, no subsolo (Gênesis 1:6). Se fizéssemos uma ilustração fiel a descrição bíblica do que é a Terra, seria um círculo plano dentro duma redoma ou bolha cercada de água.

De onde veio a Luz?

Algo muito curioso é o que o relato diz sobre o dia e noite e o que fez esta diferenciação destes dois períodos do dia: “E Deus disse: ‘Haja luz!’ e houve luz. E Deus viu que a luz era boa e separou a luz da escuridão. À luz Deus chamou ‘dia’ e à escuridão chamou ‘noite’. Veio o entardecer e veio o amanhecer, foi o primeiro dia.” – Gênesis 1:3-5.

É extremamente difícil compreender como houve a luz aqui, quando a estrela central de nosso sistema, o Sol, não havia sido criado até então segundo o relato bíblico. Talvez alguns fariam a seguinte proposição: “A luz neste primeiro dia criativo começou a passar pela atmosfera da Terra, pois, evidentemente o Sol já existia nesta altura do relato. Se fosse possível que observássemos esta luz desde a superfície, não saberíamos de onde vem essa luz”.

Existe um problema nesta proposição. Isto induziria o leitor da Bíblia a aceitar que a luz que passava pela atmosfera no primeiro dia criativo era do Sol, como se já existisse anteriormente ao quarto dia criativo. Isto no relato da criação é impossível de defender. O texto de Gêneses 1:14-19 é bem claro quando diz “haja luzeiros na vastidão dos céus para fazerem separação entre o dia e a noite” e “Deus fez os dois grandes luzeiros” e ainda “Deus os pôs na vastidão dos céus para iluminarem a terra”. Deus não haveria de fazer ou colocar o Sol e a Lua na vastidão (firmamento, ou céu) se estes astros já estivessem lá. Certamente, os termos na frase seriam diferente se fosse o caso de já existirem antes do quarto dia.

Há outros detalhes não apenas do relato da criação, mas, em outras partes da Bíblia que nos permitem concluir que o Sol e a Lua não foram criados antes do quarto dia, além disto, toda a informação que obtemos na Bíblia é que a Terra não orbita um sistema estelar, isto é, o planeta Terra não orbita ao redor do Sol. É por este motivo que assumir que a Luz criada no primeiro dia não poderia vir do Sol, porém, você entenderá isto mais adiante.

Outro problema quanto as informações sobre luz e escuridão, e como se deu a luz na narrativa da criação é que luz e escuridão foram “separados”. Não é necessário argumentar em termos científicos, e até mesmo podemos constatar pela nossa simples observação cotidiana que luz e escuridão não formam uma mistura de modo que seja necessário separá-los, mas, a escuridão é a ausência de luz, e a luz é simplesmente a eliminação da escuridão por uma fonte de luz, nada mais que isto. Se iluminar completamente um cômodo de sua casa, o que é feito com qualquer lâmpada comum, certamente você não diria que separou a escuridão da luz, e seria improvável que você conseguisse retirar um pouco de escuridão deste cômodo agora iluminado.


Onde os relatos bíblicos colocam o Sol e a Lua?

Tanto a narrativa da criação no livro de Gênesis quanto outras narrativas nos dão conta de quão científica é a Bíblia, estas ‘outras narrativas’ inclui a que relata o enfrentamento de Josué contra o Rei Adonisedec e mais quatro reis cananeus em defesa dos Gibeonitas, onde umas das ajudas divinas para o êxito de Josué incluiu a prolongação da luz do dia – Josué 9:3 - 10:14.

Não há como sustentar com
o relato de Gênesis
que a Terra orbita o Sol.
Porém, a narrativa nos informa que a prolongação da luz do dia foi possível porque o sol e a lua ficaram imóveis no firmamento: “Falou Josué a Jeová (...), e disse na presença de Israel: “Sol, detém-te em Gibeão; e tu, lua, no vale de Aijalom.” Deteve-se o sol, e parou a lua, até que o povo se vingou dos seus inimigos. (...) O sol se deteve no meio do céu e não apressou a pôr-se quase um dia inteiro.” (Josué 10:12, 13, Tradução Brasileira).

Sabemos hoje que as cidades onde o sol e lua “ficaram parados”, Gibeão e Aijalom, correspondem as cidades de Al-Jib e Yalo respectivamente. É obvio que dois astros da magnitude do sol e da lua não ficariam parados literalmente no céu num espaço pequeno dos limites destas duas cidades, o que podemos concluir que Josué falou em sentido figurado, que o sol permanecesse a leste, e a lua a oeste, isto é, não ‘seguissem o seu curso’ normal.

No entanto, é inegável que a crença destes dois atros estarem num mesmo plano e em movimento, porém, opostos um ao outro e fixados na redoma do firmamento, tal como o relato da criação em Gênesis, se reflete nesta narrativa no livro de Josué. É inegável também, que os termos “sol, fique imóvel” nos dá a impressão de que aquilo que está em movimento é o sol em relação a Terra, e sabemos que isto não é assim.

Até aqui vimos nos relatos da criação algumas informações que desconsideramos ao ler de maneira corrida e sem profundidade, como por exemplo, que a água é preexistente a Terra, e que significa o “firmamento” que nada mais é o céu físico na forma duma redoma que mantém as “águas do universo” acima, como o próprio livro de Gênesis nos informa, e o relato em nada é favorável ao fato de a Terra ser esférica, mas, em todos os casos indica que a Terra é plana. Por conseguinte, podemos concluir que até aqui há nada de científico nesta narrativa da criação do Gênesis.

Ainda nos restam algumas questões: É o relato da criação no livro de Gênesis divinamente inspirado? Se ele for mesmo inspirado, por que se afasta tanto dos conhecimentos científicos atuais? Quem escreveu o relato da criação em Gênesis? Trataremos nos próximos artigos.

Notas:

[ * ] A menos que haja outra indicação, todas as citações bíblicas são da Nova Edição Pastoral da Bíblia Sagrada.

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