Por que olharam fixamente para 1975? (Parte II)

Na primeira parte do artigo “Por Que Olharam Fixamente Para 1975?” foram abordados o contexto histórico sobre 1975, que segundo o livro “Vida Eterna – Na Liberdade dos Filhos de Deus” (Torre de Vigia, 1966) naquele ano completaria 6.000 anos de história humana na Terra. Também foi abordado que as testemunhas individualmente não nutriram esperança sobre 1975 baseando-se em interpretações particulares ou em premissas erradas, porém, diversas publicações da Torre de Vigia foram “mais taxativas do que realmente deveriam” como veremos também adiante.



Não acalenta isso nosso coração?”

A publicação “Nosso Ministério do Reino”, na época de circulação interna e hoje disponível no site oficial do movimento, existe uma declaração muito citada a respeito de 1975, veja:


Sim, desde meados de 1973, tem havido novos auges de pioneiros em cada mês... Não acalenta isso nosso coração? Receberam-se notícias a respeito de irmãos que venderam sua casa e propriedade e que planejam passar o resto dos seus dias neste velho sistema de coisas empenhados no serviço de pioneiro. Este é certamente um modo excelente de passar o pouco tempo que resta antes de findar o mundo iníquo. — 1 João 2:17.” – “Como usa sua vida?” em Nosso Ministério do Reino de julho de 1974, p. 3-4.


De fato, apesar do extremismo das testemunhas que venderam suas próprias casas e propriedades, sabe-se que independente de 1975, se dá grande ênfase nas publicações e reuniões das testemunhas ao conselho de viver duma maneira simples para se ter mais tempo na pregação, e desapegado as coisas deste mundo. Porém, existe um detalhe: viver de maneira simples não significa vender sua própria casa e propriedades tendo em vista “o fim”, sendo que não se sabia quando este “o fim” chegaria. Seria uma imprudência e tolice!

Olhe por esta perspectiva: por que não há relatos de testemunhas que venderam suas propriedades antes da década de 70? Por que auges miraculosos de pioneiros apenas perto de 1975? Tudo foi resultado da importância dada tanto a década de 70 como ao ano de 1975, como visto na primeira parte deste artigo.




Restam menos de 90 meses”

Em outra edição de “Nosso Ministério do Reino” nos mostra o quanto se incutia veladamente uma certa importância de 1975 e a relação disto com “o fim”, queira ver:


Em vista do curto período de tempo que resta, desejamos fazer isso tão amiúde quanto as circunstâncias o permitam. Apenas pensem, irmãos, restam menos de noventa meses até que se completem os 6.000 anos da existência do homem na terra.”


O que isto queria dizer? Certamente queria dizer o que disse, não é verdade? Não há como compreender de outra maneira. A que “curto período de tempo que resta” estava relacionado? Que “curto período de tempo” é este que não permitiriam com que as testemunhas realizassem o que deveriam fazer por muito mais tempo? Por que uma contagem regressiva de 90 meses para 1975, isto é, para “os 6.000 anos da existência do homem na terra”? Como dito, isto era parte do que foi publicado duma certeza velada que se tinha sobre 1975.



Uma Paz de Mil Anos Que se Avizinha

Outra publicação bastante desconcertante e nada acauteladora sobre 1975 é o livro “A Paz de Mil Anos Que Se Avizinha” de 1969, nas páginas 25 e 26, trouxe uma declaração indubitável sobre o que se entendia sobre os 6.000 anos da existência do homem na Terra, veja:

Imagem meramente ilustrativa
Mais recentemente, pesquisadores sérios da Bíblia Sagrada verificaram novamente a sua cronologia. Segundo os seus cálculos, os seis milênios da vida da humanidade na terra terminariam nos meados da década de mil novecentos e setenta. Portanto, o sétimo milênio a partir da criação do homem por Jeová Deus começaria em menos de dez anos.

A fim de que o Senhor Jesus Cristo seja ‘Senhor até do Sábado’, seu reinado de mil anos terá de sero sétimo de uma série de períodos de mil anos ou milênios. (Mateus 12:8, Al) Seria assim um reinado sabático.”

O raciocino empregado é claro o bastante. Definitivamente, o reinado milenar de Jesus, o “Senhor do sábado”, corresponderia ao último período de mil anos de 7 períodos milenares! Se esperava mesmo que partindo de 1975, começaria o reinado milenar de Jesus.




O Descanso se acha deveras as portas”

Ainda há algumas declarações feitas nas revistas A Sentinela e Despertai!, que seguem o mesmo padrão e raciocino do livro A Paz de Mil Anos Que Se Avizinha, e que nos permite entender que a Torre de Vigia promoveu mesmo o entendimento sobre 1975 corresponder ao “o fim” e o início do reino milenar de Jesus:


Se aplicarmos a declaração bíblica de que, para Jeová Deus, ‘mil anos são como um dia’, isto significaria que os seis mil anos da existência do homem são como apenas seis dias à vista de Deus. (Sal. 90:2; 2 Ped. 3:8) O vindouro reinado milenar de seu Filho seria então um sétimo “dia” após aqueles seis. Seria perfeitamente apropriado ao padrão profético de um período sabático de descanso seguir seis períodos de trabalho e labuta. Assim, ao nos aproximarmos do término de seis mil anos de existência humana, durante esta década, há emocionante esperança de que um grandioso Sábado de descanso e alívio se acha deveras às portas.” – Acha-se às portas um tempo de descanso e refrigério em Despertai! De 22 de abril de 1972, p. 27-28.


É completamente claro o raciocínio empregado aqui, e muito direto. E outras publicações refletiram este mesmo raciocínio, como um exemplo citamos a A Sentinela 15 de abril de 1970. Ao detalhar os novos ajustes cronológicos feitos pela Torre de Vigias sobre quando a criação do homem se deu e quanto tempo estava sobre a Terra, segue esta declaração:


À parte da mudança global, que as atuais condições do mundo indicam aproximar-se rapidamente, a chegada do sétimo milênio da existência do homem, na terra, sugere uma mudança agradável para a humanidade afligida pela guerra.” – p. 239, § 40.

O Senhor Jesus Cristo, o prospectado Príncipe da Paz, apontou para um Sábado maior. Apontando para este, ele disse em certo sábado semanal, quando foi criticado: “Senhor do sábado é o que é o Filho do homem.” (Mat. 12:1-8) Referia-se ao seu reinado pacífico de mil anos. Jeová Deus mede os assuntos humanos segundo uma regra de mil anos de duração (…) A fim de que o Senhor Jesus Cristo seja ‘Senhor até do sábado’, seu reinado de mil anos terá de ser o sétimo de uma série de períodos de mil anos ou milênios”. – p. 239, § 40, 41.


As declarações acauteladoras tiveram seu fim aqui: o “teria” deu espaço para o “ter”, isto é, “seu reino de mil anos terá de ser o sétimo de uma série de períodos de mil anos ou milênios”. Aqui é uma declaração positiva sobre que a década de 70 representava a última década antes do reinado milenar de Jesus. Não há como negar isto.




Premissas erradas”, de Quem?

Com base dos dados coletados em várias publicações da Torre de Vigia desde 1969, com o lançamento do livro Vida Eterna – Na Liberdade dos Filhos de Deus”, podemos seguramente afirmar que as premissas erradas que levaram ao desapontamento mais recente da história do movimento não vieram individualmente de testemunhas de Jeová entusiásticas do aconteceria ou não em meados da década de 70, ou mais especificamente em 1975. O corpo governante e a comissão de ensino têm responsabilidade direta sobre o que foi introduzido como ensino e compreendido sobre 1975.

Não importa o quanto os apologistas que fazem defesas da Torre de Vigia digam, mas, o erro é patente. Sim, e observamos num número de A Sentinela que as declarações acauteladoras se dispersaram em afirmações positivas, num tardio e raso artigo em que se assumo “alguma” culpa:

Infelizmente, porém, ao lado de tal informação acauteladora, publicaram-se outras declarações que davam a entender que tal cumprimento da esperança até aquele ano era mais uma probabilidade do que mera possibilidade. Lamenta-se que estas últimas declarações, pelo visto, tenham ofuscado as acauteladoras e tenham contribuído para o aumento duma expectativa já criada.” – A Sentinela 15 de setembro de 1980, p. 17, § 5.


Conclusão deste assunto


A intenção deste artigo é, e não outra, informar sobre o que houve em relação ao ano de 1975. Existe uma parcela considerável de testemunhas de Jeová que não são informadas deste e de outros assuntos durante sua formação como estudantes da Bíblia, isto é, como egressos no movimento da Torre de Vigia. Isto seria muito apropriado de os estudantes tomarem nota, para fazerem uma escolha consciente de religião. Por quê?

Como vimos em Nosso Ministério do Reino, por causa das expectativas sobre 1975 muitas testemunhas adequaram suas vidas e venderam propriedades, e se chegaram a este extremo, certamente deixaram de fazer ou fizeram algo baseando-se nestes entendimentos doutrinários. Isto sem dúvida alguma representa um perigo, pois, a Torre de Vigia continua incutindo nas testemunhas a eminência do fim, fazendo-as desistir de planos pessoais inocentes, de formação acadêmica e outros assuntos de ordem pessoal para darem tudo o que são e têm antes que venha “o fim”.

Certamente com base em 1975 e outras datas que podemos citar com potenciais datas próximas para “o fim”, este conselho da Torre de Vigia de desistir de tudo por causa “do fim” não é um conselho sábio a seguir.

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