Jesus Recebia Mais do Que uma Simples Reverência...

Existe uma questão entre testemunhas de Jeová e dissidentes em que divergem se Russel ensinou alguma vez no início do movimento dos Estudantes Internacionais da Bíblia, ou por um tempo mais longo que Jesus deveria ser adorado no significado da palavra como a entendemos hoje.

É de fato uma questão delicada para as testemunhas da atualidade, pois, arduamente têm defendido que não se era ensinado que Jesus deveria ser adorado, tal como Jeová é adorado. Encontrei recentemente num site de apologia a Torre de Vigia uma resposta interessante de uma testemunha que aborda este assunto extensamente com muitos comentários e argumentos, e o artigo é “Adoravam as Testemunhas de Jeová a Jesus?” * .

Ao analisar esta resposta o que encontramos? É a adoração a Jesus no passado histórico do movimento de fato uma calunia gratuita da dissidência? Ou, será que a resposta do artigo é uma tentativa insuperável de minimizar uma possível adoração de Jesus por parte das testemunhas de Jeová?


“Worship” e o que significava no séc. XIX


A argumentação é iniciada e construída a partir desta observação:
“O que estes opositores deixam de informar é que a palavra “adorar” em Inglês no início do século passado tinha uma conotação típica bastante abrangente e bem diferente da moderna palavra “adorar” em Inglês moderno, bem como em Português.” Então artigo informa que naquela época, dos escritos de Russel, a palavra “worship” significava 'reverência', tal como no entendimento atual do movimento.*
É digno de nota que, o redator do artigo não referenciou o seu argumento, isto é, não apontou uma prova concreta que indica ao menos na ultima metade do século XIX a palavra inglesa “worship” tinha um sentido semântico diferente do que nos séculos que se seguiram. É verdade que o redator chega a fazer alguma menção de dicionário na tentativa de se encontrar o significado de “worship”, como o dicionário livre The Free Dictionary que é tão “confiável” e “especializado” quanto o tradutor automático online da Google possa mostrar ser, e o dicionário Merriam-Webster ao qual não tenho observações a fazer, não o conheço.

O dicionário Oxford, um dos mais conceituados, nos informa sobre o significado de “worship”:
1. O sentimento ou expressão de reverência e adoração para uma divindade: a adoração de Deus, o culto dos antepassados; 1.1. Os atos ou ritos que compõem uma expressão formal de reverência para uma divindade; uma cerimonia ou cerimonias religiosas; 1.2. Adoração ou devoção comparável a homenagem religiosa, mostrado em direção a uma pessoa ou princípio. 1.3. arcaico: honra dada a alguém em reconhecimento do seu mérito.
Perceba que no ponto 1.3 é admitido que de forma arcaica, “worship” significava 'reverência'. Quão arcaico isto poderia ser? Veja o comentário sobre a origem da palavra do mesmo dicionário Oxford:
“Os escritos de Alfred, o Grande, rei de Wessex (871-899), são a primeira fonte de adoração, que é literalmente “worthship”. Ele inicialmente significava “bom nome, crédito” e “dignidade, importância”, que sobrevive na sua adoração, usado para uma pessoa do alto escalão, como um magistrado ou prefeito. A palavra não foi encontrada em contextos religiosos, até por volta de 1300. adoração-heróica originalmente se referia à antiga adoração de heróis como Hércules, considerado como semi-deus, e muitas vezes objeto de mitos. O historiador Thomas Carlyle foi parcialmente responsável pelo sentido moderno da palavra em suas palestras Heroes, Hero-Worship, e o Heroic in History, publicada em 1841, expôs sua visão de que a história é, fundamentalmente, a história dos grandes homens, que são adorados como heróis.”
Sim, tão arcaico quanto o final do século IX. Ainda o comentário situa o significado atual de “worship” como “adoração divina ou desemi-deus” no ano de 1841, algumas décadas antes dos escritos de Russel, então, ele já deveria saber como a palavra era realmente usada nesta altura. Outra evidência forte, e que não ajuda o redator do artigo é o fato de haver estudos sérios e bem fundamentados sobre a evolução da língua inglesa, que situa o inglês moderno entre o século XVI até à atualidade, como o artigo As Muitas Faces Das Palavras na Língua Inglesa: Variação Linguística Diacrônica e Diatópica ** (SILVA, SMITH).  
Estas evidencias apontam as inferências errôneas sobre o assunto semântico com relação a palavra “worship” que o redator apologista faz, infelizmente, isto é lamentável sob a perspectiva editorial, pois, um dos comentários no artigo era de um leitor do site apologista agradecendo os esclarecimentos. Esclarecimento que não ocorreu. Por que se pode afirmar isto?


Qual mesmo era a dúvida do leitor de A Sentinela?


Em verdade, não precisaríamos nos ater as questões etimológicas, semânticas ou diacrônicas da palavra “worship”, para esta questão era apenas necessário considerar uma resposta dada para um leitor de A Sentinela em 1889 (antes, A Torre de Vigia de Sião) que ingenuamente o redator do artigo incluiu em seu texto de defesa a Torre de Vigia. A questão é que foi inclusa a resposta, e não a pergunta do leitor. Observe o que o leitor pergunta em Questionamentos Interessantes, A Torre de Vigia de Sião de 15 de julho de 1898, p. 216, em inglês:
O fato de que nosso Senhor recebeu adoração (worship) é reivindicada por alguns como uma evidência de que, enquanto na terra ele era Deus, o Pai disfarçado com um corpo de carne e não realmente um homem. Foi ele realmente adorado, ou é a tradução com defeito?”.
Não tinha a palavra “worship” o claro significado “reverência”? Então, qual era a dúvida do leitor daquela época, onde a língua inglesa era tão diferente de nossos dias e soava tão clara como apenas “uma reverência”? A resposta ao leitor de A Torre de Vigia de Sião é bem interessante e nos esclarece o assunto, veja:
Sim, acreditamos que nosso Senhor Jesus na Terra foi realmente adorado, e corretamente [foi] deste modo. Enquanto ele não era o Deus, Jeová, ele era um Deus. A palavra "Deus" significa um "poderoso", e nosso Senhor era de fato um poderoso. Assim afirma-se nodois primeiros versículos do evangelho de João. Foi apropriado para o nosso Senhor receber adoração, tendo em vista o fato de ter sido o unigênito do Pai, e seu agente na criação de todas as coisas, incluindo o homem.
Torna-se óbvio que, se os “alguns” que pretendia tornar Jesus “o Pai disfarçado” de homem porque ele recebera “worship, adoração”, e se naquela época esta palavra se referia claramente “reverência”, era tão somente o caso de Russel tomar a mão um dicionário ou lexicógrafo da língua inglesa da época, e demonstrar para o leitor que os “alguns” usavam “worship” da maneira errada, e também nada se disse de isto ser o caso de uma “tradução com defeito”.Ao contrário, afirmou-se que Jesus pode ser adorado, embora não seja Jeová, pois é o Deus-unigênito, segundo explicado na revista – João 1:18 (Almeida Atualizada). Como remediar isto?


Uma tradução Que Refletia o Que se Ensinava


O artigo continua a se escusar sobre adoração de Jesus, agora com relação de como sua tradução do Novo Mundo das Escrituras Gregas Cristãs edição de 1950 (em inglês)vertia o termo grego “proskuneo”em Hebreus 1:6, rezava:
“Mas ao trazer novamente o seu Primogênito à terra habitada, ele diz: E todos os anjos de Deus o adorem”.
No site apologista é explicado, assim como em A Sentinela 1º de janeiro de 1954, p.31 (em inglês), que o termo grego “proskuneo” significa apenas “curvar-se diante de” ou ainda “prestar homenagens”. Apenas tardiamente em 1983 (em inglês) a comissão da tradução do Novo Mundo verteu como “E todos os anjos de Deus lhe prestem homenagem”. Aqui não vou entrar neste aspecto técnico da tradução, pois, não sou erudito em grego koiné, e não vou me arvorar a assumir tal papel. Seria tolice de minha parte. 

A questão é que, ou eles se descuidaram em traduzir Hebreus 1:6 durante os trabalhos da tradução entre 1947 e 1950 sendo que apenas 4 anos depois, em 1954 eles sabiam da possibilidade de outras formas de vertê-lo, ou foi traduzida para rezar da forma como se publicou oficialmente. Qual das alternativas seria? Tome nota dos fatos e chegue a uma conclusão no próximo subtítulo.


Que se Ensinava até 1954 sobre adoração de Jesus?


O fato é que a tradução do Novo Mundo de 1950 das Escrituras Gregas Cristãs herdava o entendimento que Russel tinha desde o princípio de seu movimento a respeito da adoração de Jesus, tanto quanto Rutherford tinha o mesmo entendimento, e o conceito introduzido posteriormente conhecido como “adoração relativa” a Jesus até exatamente 1954 na presidência de N.H. Knorr. Veja alguns exemplos:

Os príncipes liderarão o povo na sua adoração de Jeová e de Cristo. "E o povo da terra adorará à entrada da mesma porta diante do Senhor, nos sábados e nas luas novas." (46: 3) Os povos da terra adorará então no lugar exterior, ou seja, no leste do templo e antes das portas do templo. A adoração será ordenada e com regularidade; e isso é indicado pelas procissões regulares dos sábados e lua nova ". Isso vai chamar as pessoas cada vez mais perto de Jeová e para Cristo. Então eles ficarão juntos como uma unidade e povo unido, e os príncipes serão seus líderes.” Fonte: Vindicação, livro 3 (1932) p. 295 (em inglês).
Jeová Deus comanda todas [as criaturas] para adorar a Jesus Cristo, porque Cristo Jesus é a imagem expressa de seu pai, Jeová, e porque ele é o Diretor Executivo de Jeová sempre realizando o propósito de Jeová. (Hebreus 1: 3-6.)” Fonte: A Sentinela 15 de novembro e 1939, p. 339, § 4 (em inglês).
“Quando unigênito de Deus, o Filho primogênito foi feito um homem sobre a terra, Jeová Deus agradou-se “fazê-lo, um pouco menor do que os mensageiros divinos”, ou menor do que os anjos de Deus, Elohim. (Sl 8:5, Roth PSS) Agora, na vinda de Cristo para reinar como rei [em] Sião, na organização capital de Jeová, e trazer um novo mundo justo, o Senhor o faz infinitamente mais elevado do que os anjos de Deus ou de mensageiros e, consequentemente, ordena adorá-lo. Isso não significa que Jesus Cristo é Jeová, ou um “Jeová-Cristo”, como certos religiosos dizer, mas ele simplesmente cumpre o que Jesus disse na terra: “O Pai a ninguém julga, mas confiou todo o julgamento ao Filho: que todos honrem o Filho, assim como honram o Pai. Aquele que não honra o Filho não honra o Pai que o enviou”. (João 5: 22,23) Visto que Jeová Deus agora reina como rei por meio de sua capital organização de Sião, então todo aquele que O adora também deve adorar a inclinar-se ao único Chefe da organização capital de Jeová, a saber, Jesus Cristo, seu co-regente no trono da teocracia. Os santos anjos com prazer obedecem a ordem divina e eles provaram o sua adoração ao novo Rei de [nomeado por] Jeová e sua sujeição a ele, unindo em sua "guerra no céu" contra Satanás e seus anjos caídos. Depois disso, quando Cristo Jesus veio para o templo de Deus em 1918, para começar o julgamento pela casa de Deus, muitos desses anjos veio junto como seus fiéis, servos obedientes. (Apocalipse 12: 7-12; Mt 25:. 31; Isa. 6: 1-8; Mateus 24:. 31,32) No Armagedom eles vão lutar sob [o comando] dele na completa destruição de toda a organização de Satanás.” Fonte: A Sentinela 15 de outubro e 1945, p. 313, § 30 (em inglês).
“Em 1884, um pequeno grupo de cristãos se uniram e, usando as leis da Pensilvânia, organizou a Torre de Vigia de Bíblias e Tratados da Sociedade. Eles receberam a partir desse estado uma carta para exercer a sua atividade cristã. O caráter dos propósitos da sociedade está em pleno acordo com o mandamento do Senhor de “ir, fazei discípulos de todas as nações”. As palavras de sua presente Carta mostra que os propósitos da Torre de Vigia de Bíblias e Tratados da Sociedade são:

Atuar como o escravo da agência de governo legal em todo o mundo para essa massa de pessoas cristãs conhecidos como Testemunhas de Jeová, de pregar o evangelho do reino de Deus sob Cristo Jesus a todas as nações (…) e de preparar, apoiar, manter e enviar para várias partes do mundo cristão missionários, professores e instrutores da literatura Bíblia e da Bíblia e para a adoração publica do Deus Todo-Poderoso e de Cristo Jesus; para organizar e realizar assembleias, locais e mundiais para tal adoração de usar ou operar estações de radiodifusão para pregar este evangelho do reino; e para fazer qualquer e todas as outras coisas lícitas que o seu Conselho de Administração considere útil para efeitos afirmou” Fonte: Anuário das Testemunhas de Jeová de 1945, p.31-32, (em inglês).

Podemos nos deparar novamente com a argumentação: “mas, estes artigos estão inglês e a palavra para “adoração” era entendida de outra maneira, de modo que em português estes artigos não eram traduzidos assim!”. Prevendo isto, tive o cuidado de ter a versão oficial em português do livro Salvação (1939) de Rutherfod ***, e que diz o seguinte:
Livro Salvação (1939)

"Nas Escrituras a palavra monte é empregada como símbolo do reino de Jeová Deus, tendo a Cristo Jesús como Chefe e Cabeça. O “monte da casa de Jeová” é a exaltada família real, constituída de Cristo Jesús e sua noiva. Na profecia está escrito : “Sucederá nos dias vindouros que o monte da casa de Jeová será estabelecido no cume dos montes, e será exaltado sôbre os outeiros; e concorrerão a êle todas as nações .” (Isaías 2:2) O povo de todas as nações que há de obter a salvação tem de vir para a casa do Senhor a adorar alí, quer dizer, precisa crêr e adorar a Jeová Deus e ao Senhor Jesús Cristo, seu principal instrumento.” Fonte: livro Salvação (1939) p. 135.

Compare com a versão em inglês:

Livro Salvation (1939)
“In the Scriptures the word mountain is used as a symbol of the kingdom of Jehovah God, with Christ J esus as the Chief One and Head. thereof. The "mountain of the Lord's house" is the exalted royal family, consisting of Christ Jesus and his bride. In the prophecy it is written: "And it shall come to pass in the last days, that the mountain of the Lord's house shall be established in the top of the mountains, and shall be exalted above the hills; and all nations shall flow unto it." (Isaiah 2: 2) The people of all nations who obtain salvation must come to the house of the Lord to worship there; that is to say, they must believe on and worship Jehovah God and the Lord Jesus Christ, his chief instrument.” Fonte: Salvation (1939), p. 151.

Os ensinos antigos são tão criticamente divergentes ao que o movimento ensina atualmente, que até orar para Jesus, e não apenas para Jeová, era aceitável e bom:

É, sem dúvida, bom o suficiente para nós endereçar petições ao nosso Redentor e Advogado, que nos amou e se entregou por nós. Ele ainda está interessado em nós, ainda nos ama. Ele ainda é o Pastor e Bispo das nossas almas, e nós somos suas ovelhas. Ele ainda é o nosso fiel Sumo Sacerdote, que pode ser tocado com o sentimento de nossas enfermidades, e que está pronto ainda para socorrer os que são tentados. E apesar de estarmos em nenhuma parte instruído a fazer petições para ele, evidentemente, não poderia ser impróprio assim fazer; para tal curso é em nenhum lugar proibido, e os discípulos o adoraram – Mat. 28:9, 17.” Fonte: A Quem Devemos Orar?, em A Torre de Vigia de Sião 15 de maio 1892, p. 157.

Adoração à Jesus rejeitada!


A Sentinela 1º de janeiro de 1954, p.31 (em inglês), acaba por ajustar o ensino de adorar a Jesus e o dirigir-se em oração para ele:

“Consequentemente, uma vez que as Escrituras ensinam que Jesus Cristo não é uma co-pessoa trinitária com Deus, o Pai, mas é uma pessoa distinta, o Filho de Deus, a resposta para a pergunta acima [se Jesus deve ser adorado] deve ser que, nenhuma adoração distinta deve ser prestada a Jesus Cristo agora glorificado no céu. Nossa adoração é para Jeová Deus. No entanto, nós mostramos uma boa relação para com o Filho unigênito de Deus, tornando nossa adoração a Deus através do nome de Jesus Cristo. Mesmo agora, quando nos ajoelhamos em oração, como Paulo fez de acordo com Efésios 3:14-19, oferecemos oração em nome de Jesus Cristo, em obediência às suas próprias direções (João 15:16; 16: 23-26), mas, a própria oração é dirigida, não a Jesus, mas para Deus, seu Pai.”

Por que um esclarecimento nestes termos, se nunca na organização capital de Jeová se adorou a Jesus ou dirigiu orações para ele?

O redator do artigo mencionado do site em defesa da Torre de Vigia conclui:

“Os que acusam as T[estemunhas J[eová] de mudarem a doutrina e afirmam que eles “adoravam a Jesus e não adoram mais” estão usando de um embuste ou enganação que tapeia somente os que não estudam ou aqueles que fazem uma avaliação superficial do assunto”.

Minha pergunta é:


1.: Quão superficial foi as evidências mencionadas acima?
2.: Será que faltou estudar algo mais, por isto estou equivocado?
3.: Quão enganosas e embusteadas são as informações coletadas?
4.: Será que somos realmente enganadores e transmitimos informações incompletas sobre o assunto da adoração de Jesus no movimento das testemunhas?


Atenção! Poderá replicar a informação em seu site, blog ou qualquer outra mídia sem qualquer restrição, desde que você cite adequadamente que O Zigurate é sua fonte da informação.

Notas:


( ** ) Poderá ler o artigo acadêmico em: http://goo.gl/ce6DCC

( *** ) Faça o download do livro Salvação (1939, em português) neste endereço: https://goo.gl/2jT57g  .

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